» Saci-pererê
Entre os mitos criados pela imaginação popular sob a inspiração do medo, o Saci-pererê cativa pela ingenuidade e vale ser relembrado pelo seu sentido de admoestação. Criação original de nosso folclore, embora aparentado com os gnomos dos bosques germânicos, o diabinho brasileiro dá forma ao espírito polimorfo do nosso povo, cuja veia cômica foi plasmada essencialmente pela ironia concentrada dos índios, o riso infantil dos africanos, a patuscada dos portugueses, a alegria de viver dos italianos. O Saci-pererê é tudo isso e mais o gênio tutelar das florestas, sempre alerta como o “quero-quero” dos pampas. Moleque de gorro vermelho na carapinha, perneta de andar saltitante, segurando um pito entre os dentes, travesso e temível, mas nunca perverso como o Curupira, o Saci se diverte trançando rabos e crinas de cavalos, assobiando no escuro, escondendo objetos ou atiçando brigas de namorados. Mas é só ouvir o crepitar em perseguição dos que, por inconsciência ou ganância, assassinam as árvores e criam desertos. Assustados pelo pequeno demônio que deita fogo e fumaça pelos, os destruidores da mata fogem ou acabam bracejando desesperados no mar verde de clorofila. Mas, nos tempos que correm, parece que o buliçoso guarda-florestas anda meio desanimado. Já não defende as árvores da sanha criminosa do machado. Impotente, virou fatalista: - “Num diante fazê mais nada”... Brejeiro, incapaz de concentrar-se no sofrimento, dá-se todo às suas molecagens. Monta num potro chucro e vai chispando pelo pasto afora, até deixar animal derreado. E então se põe a rir, a rir como doido. Pobre Saci-pererê! Talvez rias para não chorar...Texto de Valentim Valente
» Primavera
A lenda sobre o nascimento da Primarera, recolhida por Nelson Vainer, é ao mesmo tempo um hino ao amor materno e ao milagre sempre renovado da vida, na humanidade e na natureza. O obscuro poeta que a imaginou deve ter-se inspirado ao sentir a vida no broto da planta e na criança são um só e mesmo milagre, obra de amor, de fé e de sacrifício. Diz a lenda que nos tempos antigos o continente americano era uma gélida, silenciosa e estéril extensão de terra, onde os homens viviam transidos de frio e de medo. Ora, aconteceu que certa mulher se afastou de uma taba com seu filhinho e foi colhida por violentíssima tempestade. Presa de desespero, a pobre mulher invocou Tupã e ouviu sua voz lhe dizer: - Sobe a mais alta montanha e faze teu filho tocar o céu com as mãos! Envolvida pela borrasca e aconchegando mais o doce fardo, a índia foi galgando os degraus da cordilheira. Mas toda vez que alcançava o cume de uma montanha, outro mais alto lhe aparecia. A aflição e o cansaço a oprimiam, mas a voz, mais poderosa que a do trovão, insistia: - Sobe à mais alta montanha! Por fim, já exausta e desanimada, a mãe atingiu o ponto mais alto dos Andes. Ergueu vitoriosa a criança e, ante o gesto milagroso dos bracinhos abertos, tocando o céu, a Primavera nasceu! Então, o continente rompeu a cantar pela voz da passarada e recobriu-se de folhas, de flores e de frutos prenhes da vida, que nasce do amor e se nutre de fé e de esperança.Texto de Valentim Valente
Nenhum comentário:
Postar um comentário